“Um dia sem riso é um dia disperdiçado.”
( Charles Chaplin )
Estamos todos à procura da felicidade.
Mas como pesquisar um engenho, que se encontra na esfera do abstracto, sem rosto, que apenas intuímos?
Na verdade, a maioria das pessoas, não é exactamente feliz. O que não equivale a ser infeliz.
Ouso dizer que a maior parte das pessoas que se adorna como feliz, está na verdade apenas satisfeita.Creio que a felicidade é um agente que vem mais de dentro para fora, do que de fora para dentro. Todavia não podemos desacreditar que o fenómeno dos factores externos, atingem uma valência, à qual não nos podemos alhear.
Quem é feliz, é árvore-mãe, ama a vida, manifestando-se no amor pelos outros. Sem amor a si próprio, sem amor aos demais, questiona a possibilidade de conquistar na alma e no sorriso, a bem merecida felicidade.
Não conheço ninguém, que ao acordar, um dia, de repente descobriu que se encontrava inesperadamente feliz.
Com o tempo aportamos numa margem, do rio que simula a nossa vida, e descobrimos que os outros não são mais felizes do que nós. São apenas reflexo dos sonhos que projectamos.
Adocicando, aprendendo, lutando, tentando abrir o círculo, apossamo-nos, do que todos nós gostaríamos de poder sentir, FELICIDADE!

Sei de sobra

Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.
(Fernando Pessoa)

Num dia de sol brilhante, na esplanada que estava mais à mão, saboreámos o café da manhã, sem que um sorriso acontecesse na conversa que eu e a minha amiga H., sem qualquer premeditação desenvolvíamos.
H. anda desanimada
Hoje, contou-me que, um aperto lhe chegara ao peito.
Sem pedir licença a tristeza apoderou-se da sua razão.
Com uma amargura intensa , disse que após muitos anos de trabalho, permanece há doze meses, num cenário comum, : desempregada.
É fácil entender as causas do desalento, mas sofre-las, é um esforço penoso.
O assunto não é novo nem emocionante, mas com família constituída, optou pela mais fácil direcção, tornar-se “dona de casa”.
Esta fuga, aos hábitos edificados havia décadas, começou com um empenho, que só, o eixo de amor na família , permitiu que este trabalho, embora não remunerado em notas, fosse inicialmente uma simbiose de dádiva e alegria.
Entre uma tarefa e outra, a que generosamente se obriga, os dias teimam em ser iguais.
O empreendedorismo caseiro, escalou para um patamar de obrigações, cuja imagem há muito reclamava não serem só de sua pertença, mas que foi permitindo ao longo dos anos, tornando-se hoje empreitadas, que a família encara como a sua quota de responsabilidade na micro sociedade onde pertence.
A dor envenena .
Sente-se hipotecada, à formula de vida que sempre recusou.
Não existem interesses no seu horizonte.
Pergunta-me para quê, limpar, cozinhar, engomar , se ao final da tarde chegam os filhos, já adultos , e espalham pela casa pacotes vazios de bolachas e de respeito. O marido deixa o jornal aberto a descansar sobre o sofá, que deveria ser espaço de diálogo sobre o dia de cada um.
Pergunta-me se a vida de uma “dona de casa” é assim, e se este é um processo banal.
Embora se encontre longe de pretender ser lider feminista, o aceitar, tarda a acontecer.
Após mais um café,tento deixar-lhe alguma esperança, e dizer-lhe que aquilo a que apelidamos de “corriqueiro”, pode transformar-se em qualquer coisa de bom. Temos que falar quando entendemos ter alguma coisa a dizer, assim nos oiçam…!Mas mesmo que o não façam nós erguemos a nossa voz.
Não nos podemos zangar com a vida, só porque foi vâ, a tentativa de cumprir o que imaginámos, quando jovens.
Não deixes que nasça essa sensação de vida mal vivida, não percas essa vontade de realizar coisas que pensas se perderam, engolidas pela rotina doméstica.
Estes são efectivamente esquemas comuns, que todos conhecemos, e se alguns de nós criam capacidade para enfrentar as alterações que se nos apresentam,outros refugiam-se num relógio que não dá horas.
Mas o tempo não pára!
“Cada um tem o seu passado fechado em si, tal como um livro que se conhece de cor, livro de que os amigos apenas levam o título.”
(Virginia Woolf)

I
A., moldado em infância de rebeldia era “Zorro”, não na verdade da palavra, pois o pai, homem de honra, e funcionário público não se poderia dar ao luxo de ter um produto por si germinado, e correr o risco de ficar sem emprego pelo que a opção, seria carimbar-lhe a sua assinatura.
E assim se registou, com o nome do pai e apelido de família, não sem antes empacotar no intervalo o sobrenome da mãe.

O apego do lar, era obra difícil de cumprir, pelo que breve, a mãe de A., à data teria este, ainda poucos meses de vida, voltaria à sua terra natal, com o pequeno fruto de um amor que muito depressa deu lugar à raiva.
A luta, pelo sustento era obra quase incomportável. As terras, poucas, mal davam para as sopas, a aldeia, era demasiado pequena para fazer ouvidos moucos ao falatório, e especialmente porque os “sonhos” eram coisa que não cabia naquele domínio.
Voou para uma cidade grande, com o pequeno atrás, e depressa se impressionou por um italiano, de porte, a quem não fazia diferença o facto de em tempos a sua deusa, se ter enovelado noutros lençóis de linho.

Mas para A., esta segunda oportunidade que a mãe se encontrava a viver, seria a árvore, cheia de galhos velhos e a esgaçar, que ele teria que subir durante a infância e adolescência.

Já homem, espigado encontra na capital, aquela que lhe viria a tornar os dias e noites mais estimulantes.

II

L., é gema de uma família que não se zangava com Deus. A sua origem social, não permitia conhecer maravilhas, as terras não eram muitas, mas lá se colhia e criava o suficiente para sustentar oito filhos, e no inicio do século apesar da ingratidão dos tempos, todos eles foram à escola.
Na facilidade do riso e na ternura do amor, os sacrifícios valeram a pena, pois incluída no lote dos oito, L., viveu uma infância feliz e uma adolescência encostada às irmãs mais velhas, que já tinham deixado a aldeia, deixando os pais vestidos de silêncio e de saudades da prole.
Gozava do pretígio de ser uma menina bem comportada. Aprendera a ler, a cozinhar, a bordar.
Começara a botar corpo, e os ouvidos já desabituados do carinho dos pais, pois já há muito que deixara de os ter por perto , os sussurros de A.,faziam ninho de tentação…

III

E,
Quando um casal mal ganha para a renda do quarto, os transportes lhe levam mais do que a calçada lhe gasta nos tacões, o caldo é de batatas e couve, um filho é erva daninha em terreno que se queria de pousio.
Descendência era privilégio de rico.
Não se acautelaram.L., transformou-se em terra adubada.
Habitavam em quarto exíguo, sem jamais esperar mudança, mas o fedelho vingaria, apesar de malgrado o esforço de cada dia.

LISBOA deixara de ser considerada um conto de fadas, o casamento tão pouco, o trabalho começava ainda o sol, não tinha nascido, a “féria” era parca, e a vida por si, só tinha razão, porque em dia de delírio, remeteu um catraio ao mundo, que lhe acena em parto ainda feito de dor.
Em hora que a cidade já pulsava, a criança ao abrir os olhos, depara-se com o planeta em desordem. Apesar de ser quarta feira e os videntes crerem que o dia é propício para, grandes negócios, favorece a escrita e inspira confiança, nesse dia Agostinho Neto, regressa a Luanda e assume a presidência do movimento, o Partido Comunista defende uma solução pacífica para o problema político português, começa o período de emissões experimentais da RTP, e pela primeira vez na história, os Jogos Olímpicos foram realizados fora da Europa ou dos Estados Unidos, chegando à Austrália.

Grandes mudanças, mas a fonte que aconchega o bebé, revela-se uma imagem apagada, encolhida, vazia de queixumes como quem cheirou a habilidade de revelar poucas falas, olhos baixos, e sorriso acanhado, mas de dentro emanava um calor, que iria fazer espigar o inocente, por forma a atestar, que o destino ruim de ter nascido serva, não lhe cederia por herança.
E aqui começa o “INICIO DE MIM” !