Num dia de sol brilhante, na esplanada que estava mais à mão, saboreámos o café da manhã, sem que um sorriso acontecesse na conversa que eu e a minha amiga H., sem qualquer premeditação desenvolvíamos.
H. anda desanimada
Hoje, contou-me que, um aperto lhe chegara ao peito.
Sem pedir licença a tristeza apoderou-se da sua razão.
Com uma amargura intensa , disse que após muitos anos de trabalho, permanece há doze meses, num cenário comum, : desempregada.
É fácil entender as causas do desalento, mas sofre-las, é um esforço penoso.
O assunto não é novo nem emocionante, mas com família constituída, optou pela mais fácil direcção, tornar-se “dona de casa”.
Esta fuga, aos hábitos edificados havia décadas, começou com um empenho, que só, o eixo de amor na família , permitiu que este trabalho, embora não remunerado em notas, fosse inicialmente uma simbiose de dádiva e alegria.
Entre uma tarefa e outra, a que generosamente se obriga, os dias teimam em ser iguais.
O empreendedorismo caseiro, escalou para um patamar de obrigações, cuja imagem há muito reclamava não serem só de sua pertença, mas que foi permitindo ao longo dos anos, tornando-se hoje empreitadas, que a família encara como a sua quota de responsabilidade na micro sociedade onde pertence.
A dor envenena .
Sente-se hipotecada, à formula de vida que sempre recusou.
Não existem interesses no seu horizonte.
Pergunta-me para quê, limpar, cozinhar, engomar , se ao final da tarde chegam os filhos, já adultos , e espalham pela casa pacotes vazios de bolachas e de respeito. O marido deixa o jornal aberto a descansar sobre o sofá, que deveria ser espaço de diálogo sobre o dia de cada um.
Pergunta-me se a vida de uma “dona de casa” é assim, e se este é um processo banal.
Embora se encontre longe de pretender ser lider feminista, o aceitar, tarda a acontecer.
Após mais um café,tento deixar-lhe alguma esperança, e dizer-lhe que aquilo a que apelidamos de “corriqueiro”, pode transformar-se em qualquer coisa de bom. Temos que falar quando entendemos ter alguma coisa a dizer, assim nos oiçam…!Mas mesmo que o não façam nós erguemos a nossa voz.
Não nos podemos zangar com a vida, só porque foi vâ, a tentativa de cumprir o que imaginámos, quando jovens.
Não deixes que nasça essa sensação de vida mal vivida, não percas essa vontade de realizar coisas que pensas se perderam, engolidas pela rotina doméstica.
Estes são efectivamente esquemas comuns, que todos conhecemos, e se alguns de nós criam capacidade para enfrentar as alterações que se nos apresentam,outros refugiam-se num relógio que não dá horas.
Mas o tempo não pára!
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1 Comentário

  1. É a primeira vez que aqui comento, mas este comentário está trespassado de grande tristeza e angústia. Claro que ser “dona de casa” não deve ser fácil, mas porque não arranjar um escape, um trabalho voluntário, um hobby ou algo assim. Há tanta gente a precisar de ajuda !! Força. Animo para a sua amiga

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