Só, num mundo povoado de gente

Tão só!
Cada vez são mais longos os caminhos
que me levam à gente.
(E os pensamentos fechados em gaiolas,
as ideias em jaulas.)
Ah, não fujam de mim!
Não mordo, não arranho.
Direi: — «Pois não! Ora essa! Tem razão».
Entanto, na gaiola,
cantarão em silêncio
os sonhos, as ideias,
como pássaros mudos.

Fernanda de Castro, in “E Eu, Saudosa, Saudosa”

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Aniversário

Há cinco anos, não envelheci, tornei-me mais feliz!
Na minha pauta, nasceu mais uma nota musical,
onde têm crescendo melodias,de encantar.

Verdades e Inverdades

“A verdade jamais é pura e
raramente é simples.”
(Oscar Wilde)

Qual é a tarefa da verdade?
Abrir um jornal, ligar a televisão, conversar com alguém, percebemos que a verdade não é o forte do nosso mundo.
Oferecem-nos mentiras diariamente, muitas vezes comprovados com factos que não são verdadeiros.
Isto para não exaltarmos as pequenas inverdades, nossas, dos outros, deslizes de comportamento, recursos de última hora, que se constelam todos os dias.
A nova verdade é assustadora.
Estremecemos, tememos, e muitas vezes não aguentamos o abalo. Assim, a nossa primeira tendência é “barrar a verdade”.
Mas a verdade sempre me intrigou, ela é um jogo de espelhos no qual se multiplicam as várias verdades, de um mesmo facto.
Cada circuito desses, exige de nós coragem para a revisão e elasticidade para adaptar as novas verdades.
É no fundo uma pequena maratona emocional, correndo o risco de se criar um curto-circuito na mente, de qualquer um.
Acompanhando este ciclo, veremos que cada época tem a sua verdade, ou a sua mentira.
Aquele que por teimosia ou originalidade, teima em ser sincero, em dizer só e sempre a sua verdade, acaba a tornar-se para os demais, como um chato insuportável.
São os novos tempos.

RURALIDADES

“O rural é bom não por ser tosco.
É bom por ser autêntico e nunca perder a significação.”
Miguel Torga
Foto tirada na aldeia de Varde m Trás os Montes

SONHOS

“O valor das coisas não está no tempo em que elas duram,
mas na intensidade com que acontecem.
Por isso existem momentos inesquecíveis,
coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”.
(Fernando Pessoa)

ACORDAR

Procuro
pela manhã
letras,
que de mansinho
me levam ao mundo…
bebida negra ,
que faz acordo
com notícias,
e lentes de ajuda
para encontrar
boas novas .

Mais do que actual

Parabéns marido

Este simples desconhecido, é o meu herói.

Não tem a vida desenhada em livro, estátuas, ou murais, mas é meu!

Lembra-te
Lembra-te
de todos os momentos
que nos coroaram
de todas as estradas
radiosas
que abrimos
Irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos
Mário Cesariny, in “Pena Capital”

Por vezes é preciso luz…

A luz, acende as memórias,
enterradas pelo percurso da vida!

Boas recordações

É nesta rua estreita, que não deve chegar aos três metros de largura, o mais longe que a minha memória alcança.

Estava a terminar o ano de 1959, acabadinha de completar 3 anos, fui sorteada pela “tosse convulsa”.
A dita , resolvera instalar-se,com força, logo em mim, criança, que apesar de gorducha, não era por certo muito robusta
.
Meus pais, embora atentos, mas de parcos recursos, foram confrontados pelo médico com duas hipóteses de cura, e escolha difícil!
Viajar de avião, ou passar uma larga temporada num local com ventos serranos.
Ao que sei, à data, “o avião” era solução desajustada, aos rendimentos, pelo que as circunstâncias levaram-me para casa dos meus avós no norte.
Ali, permaneci oito meses, período que determinou a cura da mazela
.

Na pequena artéria brincava com bonecos de trapo, e loiça de alumínio, comprada na feira das festas da cidade. A folgança e a asneirada eram partilhadas com amigos, também eles netos, filhos ou sobrinhos de moradores da mesma rua.
Lembro-me bem, éramos uma equipa, até nos ralhetes. Quando um de nós era castigado, era acordado pelos adultos, que todos receberíamos o mesmo prémio.

Durante este correr de tempo, as idas à aldeia dos avós, eram adorno, salpicado de liberdade a que não estava habituada .

O verde dos lameiros, o cinzento das fragas, o castanho das folhas de Outono iriam vincar a minha preferência de pantone.

Após cura completa, regressei a casa, mas pespineta como era , comecei a pedir que me deixassem ir novamente para lá nos anos seguintes.

Caminhei para lá, nas férias, durante um bom período da minha vida.

Hoje, passadas muitas épocas de férias, já não faço, do norte o meu destino.

Naquela rua, já não há avós, já não tenho amigos, e apesar de grande parte das casas ainda se manterem, já quase nada é igual, mas passear naquele pequeno espaço é condição que a alma me impõe.
À aldeia, também pouco me desloco, mas a voltinha ao Prado, a passagem pela Canteira da minha avó, hoje tratadinha pelo meu tio, o bisbilhotar do lavadouro junto a casa da T.A.,onde tantas e tantas vezes agarotei, são percursos que enquanto Deus me permitir, de quando em vez, irei visitar, adubando assim, as memórias que não posso perder.