Caridade Hipócrita

Nos últimos tempos, preocupava-o sobretudo as misérias das classes – por sentir que nestas democracias industriais e materialistas, furiosamente empenhadas na luta pelo pão egoísta, as almas cada dia se tornavam mais secas e menos capazes de piedade. «A Fraternidade (dizia ele numa carta de 1886, que conservo) vai-se sumindo, principalmente nestas vastas colmeias de cal e pedra onde os homens teimam em se amontoar e lutar; e, através do constante deperecimento dos costumes e das simplicidades rurais, o Mundo vai rolando a um egoísmo feroz. A primeira evidência deste egoísmo é o desenvolvimento ruidoso da filantropia. Desde que a caridade se organiza e se consolida em instituição, com regulamentos, relatórios, comités, sessões, um presidente e uma campainha, e do sentimento natural passa a função oficial – é porque o homem, não contando já com os impulsos do seu coração, necessita obrigar-se publicamente ao bem pelas prescrições dum estatuto.Com os corações assim duros e os Invernos tão longos, que vai ser dos pobres?…»
Eça de Queirós, ‘A Correspondência de Fradique Mendes’ capitulo V
Nunca é demais mostrar a actualidade de Eça , imaginemos então , os artigos que esceveria hoje …!!!
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1 Comentário

  1. Eu adoro o Eça, e é sempre bom lembrá-lo, sobretudo quando se trata de estar atento às realidades sociais que são quase sempre escamoteadas e maltratadas.Tenho a dizer também que o blogue, aqui, está muito bonito! Parabéns, Eduarda🙂

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