Perversos somos todos…

Delicadamente perversos, somos todos.

A criança, sobre quem as leis sociais incidem apenas parcialmente, e à qual, ainda muita coisa é permitida, relaciona-se com as suas amizades na base do “chapadão”. Se tiver alguma querela com alguma outra, avança logo com um pontapé na canela e resolve o problema. Mas a criança é um “pequeno-selvagem”.

Nós adultos, somos muito mais civilizados. Se estamos com raiva de alguém esperamos o melhor momento, para descarregar, fraterna e compreensivamente, e somente para o seu bem, dizendo que não concordamos com isto ou com aquilo, com esta ou com aquela atitude, serviço pelo qual seremos compensados na primeira oportunidade, reparando, por exemplo, naquele cheiro do cigarro, que nos esforçamos tanto por disfarçar.

A criança deixa somente uma marca na canela, que em curtas horas desaparece.

Nós gente civilizada, não deixamos marcas visíveis, mas abrimos pequenas e grandes feridas na alma, que custam muito mais a sarar.

Poema sobre a recusa

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.
Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda.



Estou a pensar, escrever uma.

A senhora da carta

Lugar de todos

Elaborar correctamente a rivalidade natural, que se estabelece entre seres, é um dos pontos mais delicados e fundamentais na vida de todos nós.
É preciso entender que para assumir o nosso lugar no mundo, precisamos de pisar o terreno, que na realidade é de todos.
O lugar de uns, é, pelas próprias leis da natureza, o lugar de outros, e aqui reside a chamada “pressão do: acredito que sou melhor”.
Aproveitam-se as fraquezas dos demais. Tudo vale; insulto, manobras de desgaste mental, indução à religiosidade, etc. etc.
Mas a mentira tem perna curta ! E quando descobertos, quando a verdade começa a incomodar, e outros, demasiados outros, contrapõem o que julgámos faze-los acreditar a teia fica fininha, fácil de rebentar.
Também há outros, que fingem que acreditam na mentira, para esses, e para os que a praticam, fica bem claro, o sentido do embuste.
Aqui o perigo, são as rugas internas, as que não aparecem no espelho, e que de repente se descobrem fundas, não existindo plástica que as disfarce.

Decisões…

Quantas vezes ouvi, em tom de velada repreensão, sábias vozes femininas, dizerem que o lugar da mulher é no lar, especialmente se a nobre tarefa da maternidade lhe bateu à porta.

Não foi exactamente esse o rumo que segui, e pela escolha, também não carrego culpa.
Tenho duas filhas, já adultas, e hoje posso dizer-lhes sem facilitismos, ou palavras bonitas, porque é que nem sempre, fui tão doce quanto gostariam, e porque é que impunemente, de quando em vez, o “NÃO” perentório, escamoteava as minhas inseguranças.
O mundo da forma que está, não foi feito para facilitar a minha tarefa de mãe-trabalhadora.
Quando engravidei da minha primeira filha, a ideia de parar de trabalhar, nem me passou pela cabeça.Primeiro porque precisava de dinheiro, e ainda mais, depois de a ter nos braços… O trabalho era parte integrante de minha vida, bem como a empreitada materna, estando descartada a hipótese de eliminar qualquer uma destas obrigações.
Sei da luta interior, que enfrentei, para me permitir aquilo que para qualquer homem, é apenas um processo natural: o direito ao trabalho.
Decidi por isso, que trabalho e eu viveríamos em comunhão, tentando a maior harmonia possível.
E foi a partir do momento, em que a minha primeira filha nasceu, que comecei a educá-la.
Não ensinei a um bébé de um dia, elementos de etiqueta, não lhe disse que não deveria pôr o dedinho no nariz, mas iniciei logo um processo de amor, e que ela era muito amada, e essa era razão, fundamental da sua presença no mundo.
E daí por diante, quando decidi que teria mais filhos, e nasce a minha segunda filha, o processo desenvolve-se de forma natural, sempre a fazer questão de transmitir que o trabalho da mãe, não era, nem nunca se tornaria num empecilho, que pudesse de algum modo, sobrepor-se ao amor que por elas tinha.
Quantas vezes ao ir para o trabalho, as duas me pediam para não ir e para ficar com elas a brincar, quantas vezes, quando alguma delas, doente, teve que ficar com alguma das avós, para eu passar o dia trancada no escritório? Cheguei a sentir-me a mais sinistra das mulheres.
Fiz questão de estar presente em pelo menos uma das refeições diárias, de acompanhar o trabalho da escola de estar com elas ao encerrar do dia , deitá-las na cama e combinar o fim de semana seguinte.
E pergunto-me agora, que mãe teria sido eu se tivesse deixado de trabalhar em prole das crianças?
Vejo-me estranhamente empobrecida. Sem trabalho teria sido por certo um ser humano mais pobre, dependente, e a dependência é sempre empobrecedora.
E estando eu reduzida ao pequeno mundo doméstico, que educação poderia trasmitir às minhas filhas? Não censuro todavia, as mães que por opção de vida entenderam que o melhor seria acompanhar os filhos desde o acordar, até à oração da noite.
Educação é palavra traiçoeira. Qualquer pessoa pode ser socialmente bem educada, sendo animicamente desprezível. É tempo de repensarmos o que quer dizer “educar”, e penso que essencialmente é o transmitir “um modo de vida”.
No meu conceito, as minhas filhas estão bem educadas, tornaram-se mulheres capazes, actuantes,dinâmicas, uma delas já é mãe, sem que para isso anulasse a sua participação na sociedade.
Não, não fui uma mãe ideal, e as minhas filhas até já descobriram o manancial dos meus defeitos, servem-se à fartazana, mas se eu não tivesse tido o meu próprio combóio, será que teria sido melhor educadora?
Juntas o dia inteiro, fermentaríamos os meus defeitos, num desgaste fatal para a nossa relação, e eu não ficaria mais mãe apenas pela kilometragem. Não creio que hoje conhecendo-me muito bem, me teçam um hino de louvores, mas vivo tranquila, pois o universo “dos bons modos”, é um problema que preocupa apenas as mentes dos “poucochinhos”!!!

Quero aqui também deixar uma palavra, ao amor de PAI, pois sem a sua ajuda, criar as mulheres que hoje temos, era tarefa bem mais difícil.

Dir-te-ei sempre

You’re my bread when I’m hungry
you’re my shelter from troubled winds
You’re my anchor in life’s ocean
but most of all you’re my best friend

500 anos de Retratos de Mulheres.

De Leonardo Da Vinci, Raphael, Titian, Botticelli,…. a Picasso, em 3 minutos.

Vida própria

Se dizem que todos fomos criados à imagem e semelhança do mesmo, porque é que somos todos, tão diferentes?
Será do tico e do teco?
Será porque alguns de nós conseguimos ter vida própria, e outros alguns gostariam de conseguir ter vida?

Conselho: Arranjai vida, minha gente… A vossa própria VIDA !

Músicas da minha adolescência I

Coragem, onde moras?

Coragem
obstruída,
pelas marés 
da vida, que se vive ou se pendura!
Coragem…
cavalo a galope
estacando
em obstáculo
impenetrável
da vida que se vive ou se pendura!
Coragem…
um sem fim, de
vírgulas
onde o ponto final
está longe
Coragem…
a minha coragem,
é falha 
da criação !