Silhouette by

Crespúsculo

 É quando um espelho, no quarto,

Se enfastia;

Quando a noite se destaca

Da cortina;

Quando a carne tem o travo

Da saliva,

E a saliva sabe a carne

Dissolvida;

Quando a força de vontade

Ressuscita;

Quando o pé sobre o sapato

Se equilibra…

E quando às sete da tarde

Morre o dia

– Que dentro de nossas almas

Se ilumina,

Com luz lívida, a palavra

Despedida.

David Mourão-Ferreira

Diálogo

Diz Toda a Verdade

Diz toda a Verdade mas di-la tendenciosamente –
O êxito está no Circuito
É demasiado brilhante para o nosso enfermo Prazer
A esplêndida surpresa da Verdade

Como o Relâmpago se torna mais fácil para as Crianças
Com uma amável explicação
A Verdade deve ofuscar gradualmente
Ou cada homem ficará cego –

Emily Dickinson, in “Poemas e Cartas”
Tradução de Nuno Júdice

E, afinal, o que é exactamente o diálogo?
O que se tenta, através do diálogo, é saber como e onde o mundo à nossa volta, aperta e dói, e por outro lado, como e onde, ele nos parece quente e acolhedor. As relações que mantemos por muito que as queiramos únicas e inimitáveis, são o reflexo directo da nossa relação com o mundo.
Dialogar, é uma arte! E das mais delicadas!
Uma condição para dominar a técnica dessa arte, é ser absolutamente sincero. E se se perguntar aos que nos rodeiam se conhece alguém sincero, é muito provável que oiçamos um sonoro “sim”. E pode até acontecer que quanto menor for a sinceridade, mais veemente será a afirmativa.
Não, não creio ser falta de carácter, ou de necessidade intrínseca de mentir, o que acontece, é que ao falsificar o diálogo, a grande maioria das pessoas, não se dá conta do facto.
Muitas vezes confundimos diálogo com uma apta habilidade para conversar, diria até que há vários níveis de profundidade. Tudo funciona em camadas, digamos…como uma cebola. Ela é feita em camadas, as externas são as mais resistentes, capazes de aguentar uma pancada, enquanto que as internas são mais macias, delicadas, até ao núcleo quase mole.
Com a sinceridade acontece a mesma coisa. À medida que nos vamos conhecendo, “descascamos” uma camada e chegamos a outra. É assim ela mesma, só é possível depois de desvendada, depois de íntimos do seu conteúdo.
É claro, que existe um outro tipo de sinceridade…a básica. E ela é imprescindível. Não haverá diálogo verdadeiro se não a tivermos como ponto de partida.
Entre aquilo que eu sinto, aquilo que tu sentes, aquilo que se diz, aquilo que ele entendeu, a demonstração que se deu, vários vãos se vão abrindo sucessivamente.
É preciso maturidade e esta não tem idade. Ela é necessária, basicamente para não se querer ser entendido a qualquer custo.
Dialogar não é fácil.
Umberto Eco no seu livro “Obra Aberta”, trata do fenómeno da comunicação, e chama-lhe isso mesmo… fenómeno.