Luisa

A vida é um caminhar.

Haverá sempre coisas por resolver, haverá sempre perguntas sem respostas, haverá sempre angústia.

Mas o caminho não conduz a um muro intransponível, de encontro ao qual esbarrarias, mas sim a um espaço  sem fim, cujo nome ignoro, mas cuja água sei  te matará toda a sede. Assim poderás  ter paz .

Há sofrimento , porque há morte!

Há sempre possibilidade de recuperação, porque há vida!

Foste capaz de ultrapassar as várias contingências da vida e ter asas para voar mesmo quando não podias. Caminhaste sem descanso apesar do cansaço, assumiste a condição de simplesmente ser pessoa.  Ser que enfrenta o mundo e não objecto manipulável.

Foi  uma conquista gradual, que permitiu  integrar em ti  tudo o que aconteceu, de forma a adquirir a pouco e pouco,  um verdadeiro equilíbrio .

Foste descobrindo a força que existia dento de ti, os convites que continuamente te eram feitos para que avançasses, tal como eras, e com aquilo que tinhas, quaisquer que fossem as circunstâncias, favoráveis ou não, no teu contexto de vida.

O  bem para lá do mal, a vida para além da morte.

Ajudaste-me a ter  fé, a suficiente para me permitir embarcar em aventuras de rumo desconhecido, que talvez me levem para campos ignorados, onde o amparo que encontrarei será, tenho a certeza, o teu forte abraço.

Ensinaste-me que a minha vida terá que ser construída com materiais qua vou escolhendo ao caminhar.

Ultrapassar a perturbação causada pela morte, vai ajudar-me a encontrar a raiz da árvore que sou, e beber o sumo dos seus frutos. Farei então um brinde à mulher, sogra e amiga que foste durante estes trinta e cinco anos de amor.

Fica em paz.

«É um fenómeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto. Falta-lhe o romantismo cívico da agressão. Somos, socialmente, uma colectividade pacífica de revoltados. »

Miguel Torga – in Diário IX ( Chaves,17 de Setembro 1961)