AMIZADE

Não creio que alguém, possa ter muitas e grandes amizades que perdurem pelos tempos do viver.
Uma grande amizade, não é fácil. É preciso querer, cultivar e ter dedicação necessária, para poder superar momentos de crise.
Nem sempre a amiga fiel da infância e juventude é nossa melhor defensora na vida.
No nosso universo diário vamos encontrando pessoas com as quais harmoniosamente podemos acomodar ideias e afectos, que com o passar dos tempos tornam-se ligações distintas, não perdendo todavia a mesma classificação: – “amizade”.
Quando adolescente, temos a amiga, que é um ouvido, não um repressor. A grande mecânica das confidências começa cedo, não contamos um segredo à nossa mãe. Mãe é Lei, a mãe assusta-se, escandaliza-se, esperneia, castiga, conta ao pai. A mãe, é nessa altura, o pior terreno para plantar confidências.
Com a amiga, fazemos o intercâmbio do “top secret”, da camisola, do livro, do baton, da sofreguidão de contar as mesmas coisas, pela décima vez , vamos bordando e tecendo sobre tudo e sobre o quase nada. A amiga ouve e entende, ela tem segredos semelhantes, como tal acompanha-nos.
Nessa fase de permuta de identidades, a vergonha desfaz-se. Não há vergonha da amiga!
Nas amizades mais longas, o entendimento é tal, que com facilidade chegamos com meias palavras, lá onde os outros não chegariam nem com muitas palavras inteiras.
Mas nós vamos crescendo, e nem sempre da mesma forma.
Adquirimos novos hábitos, temos novos interesses, vemos a vida de novas formas, e por vezes criamos outras amizades paralelas, que desgraçadamente se confundem com a “amiga dos segredos”.
Estabelece-se então um jogo de intrigas e competição, coloca-se no plano das vitórias pessoais, a conquista dos outros. É o momento das frases venenosas, do diz-que-disse, dos recados malévolos, e aí iniciamos uma nova etapa de conceito de amizade.
Começamos a sentir-nos um trapo, a ternura que dedicámos à amiga , tem que ser revista, para que não fique uma amiga a reboque da outra.
Já em idade adulta, aprendemos que a amizade, não precisa de exclusividade para ser mais forte, não temos que telefonar, sem um motivo prático, podemos viver na mesma cidade,e estarmos juntas só duas vezes por ano.
Uma grande ligação, pode por vezes decepcionar-nos acidentalmente, pode enfraquecer as expectativas da adolescência, mas não culpemos a amizade, mas sim o nosso discernimento.
Fica-nos a certeza que com o amadurecimento e com o tempo, a selecção torna-se mais fácil, e poderemos saber então, com segurança, quem virá conosco até ao fim.

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6 comentários

  1. deolinda gonçalves

     /  16/09/2012

    Um registo e um “desabafo” maravilhoso. É ter e nao querer saber a razáo da mesma. É estar na esplanada, a falar e um sentir que o tempo esvoaça e pouco foi dito.
    É o abraço, que bom estarmos juntas.
    Beijos
    Deolinda

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  2. Tudo dito e muito bem escrito.
    Contigo até ao fim🙂
    Beijo

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  3. António

     /  17/09/2012

    Eduarda: Li o e gostei do contexto envolvente, que descreve um tema complexo, referente à amizade, em duas fases da vida, distintas… o seu registo pode ser considerado “desabafo”, para mim, após várias leituras, considero uma extração sentimental próxima da revolta. Será? As interpretações da escritura nem sempre correspondem ao parecer do escritor! Assim como o viver dos seres humanos não pode ser visto da mesma maneira, na adolescência como em outra idade, onde o ter fala mais alto e mais forte que o ser…
    Perdoe esta observação pessoal, mas, como já me deve conhecer, e talvez seja um defeito, digo sempre o que penso, Saudoso abraço

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  4. Olá querida Eduarda.
    Li, reli e concordo a 100% com tudo o que pensas e escreves sobre a amizade. Gostei, sobretudo deste parágrafo:
    ” No nosso universo diário vamos encontrando pessoas com as quais harmoniosamente podemos acomodar ideias e afectos, que com o passar dos tempos tornam-se ligações distintas, não perdendo todavia a mesma classificação: – “amizade”.

    Ainda que por vezes possa parecer que nos afastamos, que nos distanciámos, há pessoas que nos marcam e estarão sempre presentes no nosso coração. Quando existe uma verdadeira empatia entre duas pessoas, ela ficará para sempre, acredita.
    Deixo-te um apertado abraço e crê que continuas no meu coração, Eduarda.
    Beijinhos.
    Janita

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  5. Eduarda

    Concordo contigo: muitas e boas amizades a perdurarem toda a vida é coisa que não existe. Mas a amizade existe e, acredito, é das mais sublimes formas de amar.

    Obrigada pela partilha das tuas meditações.

    Beijos

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  6. Obrigada a todos pela visita.

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