A meio da vida

 
 
Nome: Conceição Silva. Idade: 57 anos. Estado: viúva de solidão. Bordadeira rural há 47 anos. Profissão não reconhecida. Portanto, reforma nem sonhar com ela.
Haveres: uma mala velha de madeira e um saco de xadrez. Riquezas: a almofada
cheia de palha de trigo, os bilros e as mãos. As mãos afadigadas, de palmas
voltadas para baixo, guardando a memória de gestos antigos, antigos como os
primeiros bilros que dedos de mulher manejaram lá por terras junto ao mar.

– Foi lá que nasci. A minha mãe também rendeira, é que me ensinou o ofício.

Em terra de redes, e terra de rendas, os dedos logo de miúdos são chamados ao trabalho. Sim porque isto de redes e rendas, só enriquece quem explora o labor das mãos que as lançam. Se as mãos dos homens lançam a rede ao mar, ainda catraios, ainda o medo lhes navega forte no peito, as mãos das rapariguinhas emigram cedo dos folguedos para lançar os bilros à descoberta do ofício. Por isso, Conceição fez noviciado de rendilheira aos 10 anos.
Não houve festa quando acabou a primeira obra. Houve mais uns cêntimos, e à ceia
aconteceu mais um pouco de fartura de pão.
Há já muito que nenhum ponto da arte de bilros lhe é estranho, e no entanto a terra onde a mãe lhe pôs nas mãos os primeiros bilros não contém a sua fome. Em terra de
redes, bordadeira não tem lugar para o ganha  pão.
Fita-me com o rosto cavado de rugas, longas na testa do esforço de concentração dos pontos que desenhou. Arredia a esperança de vender paninhos. Desinteressada da vida que brota à sua volta, atenta ao bordado, pois os bilros vingam desventuras,
cavam maravilhas. São enxadas de madeira semeando renda no solo desenhado do
pano.
São as mãos de todas as mulheres trabalhadoras do meu país. Mãos tecendo o pão de cada dia, até ao dia sem reforma. Mãos de uma mulher que está no meio da vida.
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